Recbeat 2019 – A energia do carnaval do Recife

Com 24 anos de existência o festival segue revelando artistas e dando visibilidade aos ritmos nascidos do povo.

Este ano o Festival RecBeat aconteceu dos dias 2 a 5 de Março, no já tradicional palco localizado no Cais da Alfândega, em meio à folia de momo. Com uma programação vasta e plural, os organizadores do evento montaram um lineup que foi do experimental ao brega, passeando pelo pop, forró e muito mais, o que causou muitos debates nos principais grupos fomentadores da cena cultural recifense.

O Vitrola Digital Music esteve presente nos dois primeiros dias de festa e traz para você um pouquinho da emoção e energia do evento.

O primeiro dia de festival iniciou com boa parte do público vestindo uma espécie de abadá, que na verdade são os uniformes dos grupos de passinho, que só crescem nas comunidades da Região Metropolitana do Recife. Todo esse público aguardava as atrações principais da noite, os MCs Shevchenko e Elloco, mas como já é de tradição no evento, os públicos dessa e outras atrações se misturaram para curtir as experimentações sonoras do DJ Dolores, que levou batidas influenciadas por ritmos afro brasileiros, africanos e muito mais, colocando todo mundo para dançar e suar, logo na abertura da festa.

Dando sequência a noite, a norte-americana The Space Lady apresentou seu trabalho lendário e até mesmo pioneiro nas ruas da década de 1970, usando sintetizadores para construir um ritmo que varia do synth-pop  ao electro e surpreendeu a todos com esta forma diferente de fazer música. Nos intervalos das atrações, os DJs GG e Igor, da festa Embrazado, agitaram a galera com muitos ritmos periféricos, que segundo eles são de extrema necessidade representativa nos grandes festivais que circulam no Recife, pois inclui o povo nesses espaços.

O trio eletrônico Radiola Serra Alta deu sequência ao festival, numa apresentação que usava de ritmos populares mixados, fazendo uma nova configuração do momento da cena cultural pernambucana. A apresentação destas mixagens era acompanhada, em sua maioria, pelas letras e flows de Jéssica Caitano, remetendo a uma espécie de embolada moderna ou mesmo às novas formas de rap que circulam na cena nordestina.
Ao fim da apresentação do Radiola da Serra Alta já não era possível vê até onde ia o público do festival, as ruas estavam tomadas pela ânsia do show dos MCs sensação do carnaval pernambucano 2019. Era, sem dúvida, a noite do bregafunk, da periferia, dos marginalizados; e quando Shevchenko e Elloco subiram ao palco, a alegria, irreverência e luta pela quebra de preconceito subiram juntos. O Recife antigo se rendeu ao passinho e a emoção dos discursos dos MCs pelo fim do preconceito: “não é porque somos favela que não temos educação, olha aí, nenhuma briga. A favela só quer brincar em paz”, afirmou Elloco, enquanto todos aplaudiam. E foi sob aplausos que foi findada a primeira noite do Recbeat.

MC ELLOCO – Foto: Dannylo Cabral

A noite de Domingo fora esperada com muita ânsia, principalmente pelo público LGBT, que veria o principal nome do pop drag no palco do Festival. Era a noite da Pabllo Vittar e bastava ver o tanto de arco-íris na platéia para não se ter a menor dúvida que ela seria a estrela da noite. Porém, este mesmo público se surpreendeu com o lineup recheado de boas surpresas.

A noite teve início com a DJ Kimberly Lindacelva, que também tocou nos intervalos, levando muito pop, dance e house para o palco do Cais da Alfândega. Na sequência o músico, regente de banda marcial e vencedor do pré-amp, Cassio Oli, abrilhantou o segundo dia de festival, mostrando seus trabalhos de uma nova perspectiva para a cena musical e cultural pernambucana.

O domingo não foi apenas LGBT, no Recbeat, o grupo paranaense Tuyo levou a força, a resistência e o talento da negritude brasileira, num show emocionante do seu disco “Pra Curar”. Até quem não conhecia o grupo parou para receber a energia positiva que emanava do palco e podia ser sentida por todos, inclusive pelos próprios artistas, que durante vários momentos do show perderam as palavras para agradecer ao público.

Logo após o show do Tuyo, a energia do Recbeat foi da leve e reflexiva para a agitada e dançante, com o show incrível do cantor cearense Getúlio Abelha. O cantor surpreendeu a todos com seu show que traz o forró das antigas, o brega romântico, numa performance de muita irreverência e força de resistência. O público cantou, sorriu e sentiu o impacto das expressões corporais que o cantor e seus dançarinos trouxeram pela primeira vez ao Recife.

Ao fim do show do Getúlio o público clamava pela Pabllo Vittar, mas era hora de Romero Ferro esquentar ainda mais a noite, que já fervia todo o Recife antigo. Com suas músicas que misturam elementos do pop, frevo e brega, a multidão que já estava formada no Cais da Alfândega cantava e se aglomeravam ainda mais nos arredores do palco. Sua apresentação animada e dançante, que em vários momentos rememorava músicas de sucesso no imaginário de todo recifense, fazia o público cantar em coro e sob aplausos se despediu de todos.

Neste momento as ruas já estavam tomadas pelos fãs da drag queen de maior prestígio do Brasil. O público chamava, clamava, implorava pela Pabllo Vittar, cantando seus maiores sucessos ou mesmo gritando seu nome. A olhos nus não se podia ver até onde ia o público do Recbeat, o Cais da Alfândega ficou mínimo por causa dela e ao subir no palco o chão, literalmente, tremeu. A cantora provocou um mini terremoto em terras recifenses, foi o ápice da noite: gritos, choro, desmaios, todo tipo de emoção se fundiu e deu vida ao Bloco da Vittar, modo como seus shows no carnaval foram batizados.

Com músicas do seu disco “Não para não” e hits já aclamados como “Na sua cara” e “K.O”, a artista mostrou ter conquistado o carnaval, fazendo um show que, com certeza, ficou marcado na história não só do Recbeat, mas de todo o carnaval do Recife.

Pabllo Vittar – Foto: Dannylo Cabral
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